Presencialidade em alta: mais empresas na LATAM voltam ao escritório

Em apenas dois anos, o trabalho 100% presencial na América Latina passou de 16% para 48%, segundo um estudo da Michael Page e WeWork.
O número impressiona: quase metade dos colaboradores voltou para o escritório em tempo integral. Mas a pergunta de fundo é mais complexa: isso significa que as empresas venceram a batalha pela flexibilidade?
Não necessariamente.
Líderes e colaboradores não estão olhando para a mesma coisa
O estudo revela um descompasso profundo entre o que acreditam os líderes e o que sentem os colaboradores.
- Para as empresas, ver as pessoas no escritório continua sendo sinônimo de produtividade.
- Para os colaboradores, a produtividade está mais associada à flexibilidade, equilíbrio e autonomia.
A contradição é clara: enquanto os diretivos insistem no retorno, 54% dos entrevistados preferem modelos híbridos, e a maioria escolheria ir apenas 1 ou 2 dias para o escritório.
Na Argentina, 59% simplesmente não aceitaria um esquema que não seja híbrido. Na Colômbia e México, a tendência é similar: os colaboradores priorizam flexibilidade sobre localização fixa.
O choque de expectativas está gerando atritos culturais, desmotivação e, em alguns casos, perda de talento estratégico.
Por que tantas empresas empurram o retorno
Se os colaboradores não querem, o que motiva tantas companhias a insistir com a presencialidade?
A resposta mistura fatores culturais, econômicos e de gestão:
- Cultura difícil de manter no remoto Os líderes sentem que os valores da organização se transmitem melhor pessoalmente. O contato diário ajuda a socializar e reforçar dinâmicas, mas também pode virar rotina sem impacto real.
- Medo da queda de produtividade Várias empresas reportaram quedas de performance durante o home office. No entanto, outros estudos contradizem essa visão: a consultoria McKinsey demonstrou que times com esquemas híbridos bem desenhados podem ser até 13% mais produtivos.
- Inércia do mercado imobiliário Muitas empresas mantêm contratos de escritório assinados antes da pandemia. O custo irrecuperável desses metros quadrados empurra a justificar seu uso, mesmo que nem sempre seja o melhor para o time.
O erro: voltar "porque sim"
O problema não está no escritório em si, mas no propósito que se lhe dá.
Se o colaborador passa horas em deslocamento para depois fazer as mesmas videochamadas que faria em casa, a motivação desaba. Segundo dados da TomTom, os moradores de São Paulo perdem 90 horas por ano apenas em horários de pico. Esse tempo perdido corrói a produtividade e o bem-estar.
Além disso, a imposição unilateral gera desconfiança: quando a decisão é percebida como política interna e não como estratégia compartilhada, os times sentem que não são ouvidos.
Como repensar a presencialidade na LATAM
O desafio não é escolher entre casa ou escritório, mas definir um propósito específico para cada espaço de trabalho.
- Casa → foco, concentração e autonomia.
- Coworking → colaboração, networking e criatividade.
- Escritório corporativo → encontros estratégicos, cultura e decisões críticas.
Um exemplo próximo: várias startups argentinas e mexicanas estão migrando para modelos de "escritório como serviço", onde reduzem metragem própria e complementam com coworkings. Isso permite dar a cada interação um sentido concreto, em vez de sustentar escritórios vazios três dias por semana.
O que vem por aí: híbrido com propósito
O futuro não será 100% presencial nem 100% remoto. Será híbrido com propósito: um modelo em que cada espaço contribui algo distinto e complementar.
O híbrido improvisado (onde cada time faz o que quer) não funciona. E o híbrido forçado (onde a empresa impõe dias fixos sem explicar por quê) também não.
O que se aproxima é um esquema flexível, mas com design estratégico. Que combine métricas de produtividade, satisfação e retenção de talento para ajustar dinâmicas em tempo real.
O dado é claro: 48% das empresas na Latam já operam 100% presencialmente. Mas interpretar isso como o fim da flexibilidade seria um erro.
A chave não está em voltar para o escritório, mas em repensar para que voltar.
As companhias que entendem essa diferença estarão melhor posicionadas para reter talento, reduzir rotatividade e construir culturas sustentáveis.
Em um mercado onde a geografia do talento já não coincide com a localização do escritório, a vantagem não será de quem impuser políticas rígidas, mas de quem desenhar experiências de trabalho com propósito.