Vanina Armesto: "Há coisas que não se pode fingir nem programar"
Vanina Armesto, Chief People Officer da Escala 24x7, conta como sustenta uma mesma cultura em mais de 15 países e por que o humano é insubstituível. Vanina Armesto, CPO da Escala 24x7: cultura, talento e a era da IA

Vanina Armesto: "Há coisas que não se podem fingir nem programar"
HR TOP VOICES
Três ideias para levar dessa entrevista
1. "Quando HR fala a linguagem do negócio, a mesa abre um espaço porque confia."
2. "O que não se diz pode frear o talento de um time."
3. "A melhor proposta de valor é a que faz rejeitar uma oferta externa."
HR Top Voices é a série de entrevistas da Desky com os líderes de People que estão redefinindo como se constroem, gerenciam e cuidam os times na América Latina. Nesta edição, conversamos com Vanina Armesto, Chief People Officer da Escala 24x7, sobre o lugar do humano na era da IA, como HR se ganha um assento nas decisões estratégicas e o que é preciso para que uma mesma cultura se sinta igual em mais de 15 países.
Em 30 segundos
- Quem é: Vanina Armesto, psicóloga (UBA) e Chief People Officer da Escala 24x7, com mais de 20 anos em Recursos Humanos.
- IA e pessoas: a tecnologia ajuda a pensar melhor, mas não substitui a escuta, a contenção nem o abraço de um time.
- HR na mesa: o lugar nas decisões estratégicas se ganha entendendo o negócio 100% e mostrando o valor que geram as pessoas.
- Retenção: em um mercado com quase 30% de attrition, unir atração e experiência do colaborador foi chave para não perder talento.
- Cultura multipaís: os valores 3HS (Humble, Hungry, Honest & Smart) sustentam uma mesma cultura em mais de 15 países.
Vanina Armesto diz, entre risos, que não conseguiria viver sem Claude nem Gemini. É Chief People Officer da Escala 24x7, uma companhia que vive da nuvem e da IA, opera em mais de 15 países e é parceira premier da AWS. Trabalha, literalmente, rodeada de algoritmos.
E mesmo assim, quando lhe perguntam o que há de mais valioso que um time tem, ela não fala de software. Fala de um abraço.
Não há contradição. Há uma forma de entender o trabalho que poucas pessoas em HR conseguem articular com tanta clareza: a tecnologia é o motor, mas as pessoas continuam sendo as que dirigem.
Vanina é psicóloga pela Universidade de Buenos Aires e leva mais de 20 anos em Recursos Humanos. Foi parte da transformação digital do Santander quando o banco decidiu mudar de pele, liderou ao mesmo tempo a atração de talento e a experiência do colaborador na Naranja X em um dos mercados de talento mais agressivos da região, e hoje é a arquiteta da cultura da Escala.
Na conversa aparece um traço que se repete como um refrão: toda vez que lhe perguntam por um sucesso, ela passa a bola para outro. Para os líderes, para os times, para quem a formou. É a forma de liderar de quem prefere reger a orquestra antes que tocar solo. E, de passagem, é a melhor definição do que faz uma área de People quando funciona bem.
Esta é a conversa.
IA e fator humano em Recursos Humanos: o que nenhuma tecnologia pode fazer
Em um negócio que vive da nuvem e da IA, você defendeu publicamente que "não há tecnologia que substitua o abraço, a calidez e a emoção de um time". Por que essa mensagem ressoou tanto?
Vanina não fala da trincheira de quem teme a tecnologia. Fala de dentro. Ama a IA, se apoia nela todos os dias e tem uma ideia muito precisa de como usá-la: não como um oráculo que dá respostas, mas como uma lanterna que ajuda a enxergar melhor. A chave, diz, está em fazer boas perguntas, para que ajude a pensar, a fazer duplo clique e a aprofundar.
Até admite algo que muitos sentem e poucos dizem: ainda a surpreende o quanto empática a IA pode parecer quando conhece o estilo de comunicação de cada pessoa.
Mas parecer não é ser. E aí traça a linha:
"As pessoas continuam precisando de outro que as escute, as contenha, as celebre, as desafie e as impulse a encontrar esse talento e esse fogo interno."
Vanina Armesto – Chief People Officer | Escala 24x7
Essa autenticidade, diz, não aparece em uma resposta gerada:
"Há coisas que não se podem fingir nem programar, e é aí onde continuamos fazendo a diferença como seres humanos."
Vanina Armesto – Chief People Officer | Escala 24x7
Para uma área de HR que hoje sente a pressão de automatizar tudo, a mensagem funciona como uma bússola. A pergunta não é o que a IA pode fazer, mas o que nunca deveria fazer. Delegar a folha de pagamento, sim. Delegar o momento em que alguém precisa ser ouvido, não. Na Escala, o trabalho de People é que esse lado humano esteja sempre presente, com a convicção de que cada pessoa impacta no que finalmente recebe o cliente.
Como HR se ganha um lugar nas decisões estratégicas
Que conselho deixarias para as próximas gerações de líderes de HR na América Latina para se ganharem um lugar nas decisões estratégicas do negócio?
Durante anos, HR reclamou um lugar na mesa. Vanina propõe virar a pergunta: não se trata de pedir a cadeira, mas de trazer algo que ninguém mais naquela mesa pode trazer.
Para ela, esse lugar se ganha sendo parte do negócio, entendendo-o 100% e mostrando o valor que geram as pessoas. E não com discursos, mas respondendo perguntas que qualquer CEO quer ouvir: quanto mais impacto poderia gerar a empresa se trabalhasse diferente, qual é a densidade de talento da organização, como aprende cada dia mais e melhor, e como continua sendo referência na indústria sem ficar para trás.
São perguntas que não se respondem com um dashboard de absenteísmo. Exigem que HR deixe de falar seu dialeto e aprenda a linguagem que se fala na mesa.
"Quando HR fala a linguagem do negócio, a mesa abre um espaço porque confia."
Vanina Armesto – Chief People Officer | Escala 24x7
A palavra-chave é confiança. Não se negocia nem se exige: se constrói, pergunta a pergunta, decisão a decisão.
Antes de fechar, Vanina deixa uma observação pessoal que vale tanto quanto o conselho: chegar até aqui nunca foi um fim em si mesmo. O que a trouxe foi seguir sua paixão, se atreverse mesmo que às vezes desse medo e assumir o esforço, que foi muito. Sempre com a ideia de deixar marca em cada estação do caminho, entendendo como seu trabalho impacta na vida das pessoas.
Por que HR tem que ser cada vez menos operativo: trabalhar sobre o que não se diz
Você tem mais de 20 anos de carreira em RRHH e é psicóloga pela UBA. Que visão te diferenciou de outros líderes com perfil mais operativo?
Todo time tem uma parte visível e outra submersa, como um iceberg. O visível são os processos, os objetivos, as reuniões. O submerso são os vínculos, as conversas pendentes e, principalmente, o que não se diz. E é essa parte, a que não se vê, a que costuma afundar os navios.
Vanina explica sem metáforas: o que não se diz pode resultar em conflitos e funcionar como um obturador na hora de desdobrar o talento de um time ou tirar sua melhor versão. A Psicologia lhe deu uma visão para detectar o que não está à vista nem sobre a mesa, colocá-lo em evidência e trabalhar sobre isso até destravar.
Disso emerge uma ideia que deveria incomodar mais de uma área de HR: o operativo é justamente o mais fácil de automatizar. Se o valor de HR está em carregar dados, aprovar solicitações e mover papéis, esse valor tem data de vencimento. Por isso, diz, o papel deveria ser cada vez menos operativo. O verdadeiro aporte está em entender o negócio em que HR está imerso e como as pessoas impactam nele.
"Pode soar batido, mas não encontro outra forma de dizer: o talento é o que marca a diferença em um projeto, diante de um cliente, na marca empregadora e ante a concorrência."
Vanina Armesto – Chief People Officer | Escala 24x7
Soa batido, sim. Mas dito por alguém que passou duas décadas olhando por baixo da superfície, tem outro peso.
Retenção de talento com quase 30% de attrition: a lição de Naranja X
Na Naranja X você liderava ao mesmo tempo a atração de talento e a experiência do colaborador. Que vantagem tem pensar essas duas frentes juntas?
Para entender a resposta é preciso voltar ao contexto. O mercado de talento digital era uma corrida sem linha de chegada: todas as empresas corriam contra relógio atrás dos mesmos perfis, oferecendo cada uma uma proposta melhor que a anterior. Todos buscavam as estrelas, lembra Vanina, "e as não-estrelas também". O attrition médio do mercado rondava 30%.
Nesse cenário, muitas empresas funcionavam como um balde furado: investiam cada vez mais em atrair talento por cima enquanto se lhes escapava por baixo. Ter uma só visão sobre as duas frentes permitiu tapar o buraco. Construíram uma marca empregadora que funcionasse ao mesmo tempo como ímã e como âncora: que atraísse quem estava de fora e blindasse quem já estava dentro.
"Uma boa proposta de valor não é só a que convence alguém a aceitar uma oferta, mas também a que o leva a rejeitar uma externa quando chega."
Vanina Armesto – Chief People Officer | Escala 24x7
É uma vara mais alta do que parece. A maioria das propostas de valor está desenhada para o primeiro sim. Muito poucas estão pensadas para o segundo não, aquele que alguém diz quando um headhunter o chama numa terça à tarde.
A condição para conseguir, segundo Vanina, é a mesma que atravessa toda a entrevista: trabalhar como parte do negócio, entendendo o propósito da organização e conectando com quem a integra.
Cultura organizacional em mais de 15 países: como ser "escalador" em qualquer lugar
Você é a arquiteta da cultura de uma empresa que opera em mais de 15 países ao mesmo tempo. Como consegue que a essência de Escala se sinta igual de autêntica em cada um?
Sustentar uma cultura em um só país já é difícil. Fazer isso em mais de 15 é como manter a mesma música soando em quinze rádios diferentes, cada uma com seu próprio equalizador. O risco não é que a música mude de repente, mas que vá desafinando aos poucos.
Na Escala, o diapasão tem nome. Tudo começa em uma convicção do fundador: as pessoas são o motor do negócio. Essa ideia virou um mantra e hoje cada líder é responsável por sustentá-la. Para isso, a companhia trabalha com princípios culturais e de liderança baseados em seus valores fundacionais, as 3HS: Humble, Hungry, Honest & Smart. A intenção é que estejam presentes em cada momento da jornada do colaborador e em cada espaço de conexão.
A isso se somam padrões de excelência na entrega de produtos e serviços, transmitidos também como parte do DNA. E aí aparece a prova mais exigente de que a cultura funciona, uma que não se mede em pesquisas internas mas lá fora: um cliente que trabalha com times de diferentes países recebe a mesma qualidade de Escala. Isso é parte do que a sustenta como parceira premier da AWS.
"Cada país tem sua própria marca, e isso nos enriquece, mas são esses valores e esses padrões os que nos unem e fazem que ser 'escalador' se sinta igual em qualquer lugar."
Vanina Armesto – Chief People Officer | Escala 24x7
Mesmo idioma, acentos diferentes. Essa parece ser a fórmula.
Vale uma nota editorial: quando a cultura se constrói em cada espaço de conexão, esses espaços também têm que existir no físico. Em empresas que operam em muitos países, reunir um time em Lima, Bogotá ou Cidade do México costuma implicar um fornecedor diferente por cidade, um contrato diferente e uma fatura diferente. Plataformas como Desky resolvem essa parte com acesso a coworkings e salas de reunião na América Latina e Europa desde um só contrato, pagando só por uso.
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De Santander a Escala 24x7: três aprendizados para liderar em tecnologia
Você passou por Santander, um banco tradicional, e hoje lidera pessoas em uma empresa 100% cloud. Que aprendizado dessa transição a tornou uma melhor líder?
Há mudanças que se fazem com caixas e outras que se fazem com a cabeça. A de Vanina foi das segundas.
Chegou ao Santander em um momento muito particular: o banco havia decidido se transformar e digitalizar em grande velocidade, e ela teve a oportunidade de trabalhar junto a referências da indústria tecnológica. Define como um renascimento profissional. Para chegar à versão de líder que é hoje, primeiro teve que esvaziar a mochila: desaprender os mandatos mais "corpo" que trazia e fazer espaço para outro mindset.
Daqueles anos levou três aprendizados que qualquer área de HR pode colocar em prática amanhã mesmo. O primeiro, iterar e medir cada ação para corrigir rápido quando é preciso, em lugar de esperar pelo fechamento do ano para descobrir que algo não funcionou. O segundo, impulsionar o protagonismo de cada pessoa, fazendo que todos se sintam responsáveis e participantes sem importar o papel ou a hierarquia. E o terceiro, questionar o status quo que não gera valor para o negócio nem, principalmente, para o usuário final.
"Sinto que sou fruto dessa experiência e das que vieram depois, nas quais tive a oportunidade de me rodear de pessoas com uma grande liderança que deixaram sua marca na minha carreira."
Vanina Armesto – Chief People Officer | Escala 24x7
De novo, o crédito para fora. Como se cada etapa de sua carreira fosse uma camada a mais de uma mesma obra construída a muitas mãos.
Diversidade: não começar pela meta
Em um ano, a diversidade de talento na operação de Peru cresceu exponencialmente. Como se constrói um resultado assim, e o que dirias para outra líder de HR que quer replicá-lo?
Fiel ao seu estilo, Vanina se tira do centro da foto. O resultado, diz, não é de People mas dos líderes que, com seu trabalho, sua presença e seu protagonismo, contagiam a cultura e convidam outras pessoas a se somar. São eles os primeiros em entender que a diversidade é parte do DNA da companhia e que o talento é simplesmente isso, talento, sem importar de onde seja nem que etiqueta tenha.
People, nessa história, não é o protagonista mas a ponte. Trabalha em sinergia com esses líderes para encontrar as pessoas que façam match com o propósito da companhia e com sua vontade de fazer as coisas diferente. "E aí sucede a magia", resume.
Seu conselho, porém, vai muito além da diversidade. Serve para qualquer transformação cultural que uma empresa queira encarar:
"Não comecem pela meta, como se fosse um indicador a mais para mover, mas por transformar o olhar interno e por entender para quê e por que vale a pena ir por esse caminho."
Vanina Armesto – Chief People Officer | Escala 24x7
É a diferença entre pintar a fachada e mudar os alicerces. Um número pode se mover em um trimestre. Um olhar, não. Mas quando o olhar muda, o número chega sozinho. E sem os líderes como protagonistas, remata, é impossível.
O que HR pode levar dessa conversa
Usar a IA como lanterna, não como oráculo. Automatizar o operativo e proteger os momentos que precisam de uma pessoa do outro lado.
Se ganhar na mesa com perguntas de negócio. Impacto, densidade de talento e aprendizado contínuo são a linguagem que abre a porta das decisões estratégicas.
Olhar por baixo da superfície. O que não se diz em um time costuma custar mais que o que se diz.
Desenhar a proposta de valor para o segundo não. A retenção começa no dia que alguém rejeita uma oferta externa, não no dia que aceita a sua.
Mesmo idioma, acentos diferentes. Uma cultura multipaís se sustenta com valores claros, padrões compartilhados e líderes que os encarnam.
Começar pelo olhar, não pela meta. Os indicadores se movem quando muda a forma de pensar, não o contrário.
Perguntas frequentes sobre IA, HR estratégico e times multipaís
Qual papel cumpre a IA em Recursos Humanos?
A IA ajuda a pensar melhor, aprofundar e automatizar o operativo, mas não substitui a escuta, a contenção nem o acompanhamento que as pessoas precisam de outras pessoas. Por isso o valor de HR está cada vez mais no estratégico e no humano.
Como HR pode se ganhar um lugar nas decisões estratégicas?
Segundo Vanina Armesto, Chief People Officer da Escala 24x7, entendendo o negócio 100% e mostrando o valor que geram as pessoas: quanto mais impacto se poderia gerar trabalhando diferente, qual é a densidade de talento da organização e como aprende cada dia.
Como reter talento em um mercado com alta rotatividade?
Integrando a atração de talento e a experiência do colaborador. Uma proposta de valor sólida não só ajuda que alguém aceite uma oferta, também faz que rejeite uma externa.
Como manter uma mesma cultura organizacional em uma empresa que opera em muitos países?
Com valores claros que se traduzam em princípios de liderança e estejam presentes em toda a jornada do colaborador, e com padrões de qualidade compartilhados. Na Escala 24x7, os valores 3HS e os padrões de excelência fazem que um cliente receba a mesma qualidade sem importar de que país o time trabalhe.
Como facilitar encontros presenciais em times que trabalham desde vários países?
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Esta matéria foi elaborada a partir de uma entrevista para a série HR Top Voices, com a colaboração do time da Desky, plataforma de espaços de trabalho flexíveis para times distribuídos na América Latina e Europa.